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Glam Magazine

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FINK na Casa Da Música (Reportagem)

Na segunda e terça feira, 6 e 7 de novembro de 2017, o Teatro Tivoli BBVA em Lisboa, e a Sala 2 da Casa da Música do Porto, receberam os FINK no âmbito da tour europeia de promoção do álbum “Resurgam”.

A Glam Magazine foi vê-los e ouvi-los naquele que Finn Greenall declarou ter sido o edifício mais estranho onde já tocou. A sala abriu antes da hora marcada, com uma antologia de entrevistas e temas que homenagearam meio século de música, projetada na superfície ondulada atrás do palco: zappa, beatles, talking heads, bowie, iggy, pixies, police, radiohead, beck, nick cave e muitos outros. À medida que o recinto se encheu, a atenção divergia entre entre o registo multimédia dos ícones da musica, e a prodigalidade de um set up constituído por duas baterias acústicas nos extremos opostos do palco, separadas por uma variedade interminável de guitarras e baixos, pedais para todos os efeitos, e um teclado quase solitário junto a aresta frontal.

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O trio que integra o projeto FINK muniu-se de um baterista e guitarrista adicionais, e em formato pentagonal abriu com “Warm Shadow” ao som da bateria suplementar, três guitarras e com Guy Whittaker no baixo de seis cordas que segurou na maioria dos temas. O som apoderou-se do espaço quando Tim Thornton substituiu a guitarra pela percussão, conseguindo um efeito stereo notável, potenciado pela sonoridade irrepreensível da sala. Seguiu-se “Shakespeare”, em que os ensinamentos de Romeo deram continuidade os preliminares restabelecendo a ligação com um público recetivo. Finn sentou-se ao piano para entoar o belíssimo “Day 22”, inicialmente acompanhado por Tim Thornton na guitarra acústica, que a certo ponto abandonou pela bateria, conferindo um groove adicional à musica que escalou até ao final apoteótico. Seguiu-se “Not Everything Was better In The past” num registo quase unpluged, conseguido pelo namoro entre o dedilhar minucioso de uma guitarra de 12 cordas e a perícia de Guy Whittaker a extrair toda a sensualidade de um baixo acústico.

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A transposição para “Perfect Darkness” deu-se entre uma nuvem de fumo de cena de tal forma intensa que os sentidos ficaram reduzidos à audição e à vibração, e os corpos viajaram por cima do som, saltitando entre as notas, e registando ocasionalmente o piscar de umas luzes que sinalizavam a transição entre a fantasia e a realidade. “Ressurgan” ressuscitou do latim na sua cadencia circular em torno da vocalização nivelada de Finn, com o efeito de pedrada atirada ao charco que caracteriza a morfologia da musica, amplificado pela clonagem milimétrica do eco das baterias. O teclado voltou a ser abordado em “Godhead”, e entreabriu a porta às cordas, que por sua vez cederam o lugar a pandeiretas, palmas, e tudo quanto produzisse som e marcasse ritmo. Seguiu-se “Cracks Appear”, o single que estabelece a ligação entre os álbuns anteriores e o mais recente, e que se confirma mais próximo dos sons etéreos que antecederam este novo trabalho, marcadamente mais complexo. Outra lufada de fumo cénico criou um ambiente paradoxal para “Fall Into The Light”.

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A interpretação começou por ser minimalista, marcada pela percussão eletrónica, os loops curtos e delays que repescam o som seminal de FINK, mas deslizou para uma catarse triunfal, magnetizada pelo desempenho genial de Tim Thornton na bateria. “This isn’t a Mistake” desenrolou-se em torno das linhas de baixo de Guy Whittaker, que deslizaram até ao infinito, secundarizando toda a restante instrumentalização, e tornando a vocalização quase irrelevante. Um efeito que no álbum apenas se intui, mas que ao vivo acrescentou música à musica, tornando-a quase hardcore. “Lookin too Closely” satisfez a ansiedade da audiência, e antecedeu “Yesterday was Hard on all of Us”, que se iniciou com Finn sentado com a guitarra acústica no colo, e evoluiu para trocas de instrumentos entre todos os elementos da banda, até assentar num ritmo da bateria quase tribal que raptou a musica, o palco e o público. O concerto terminou com a doçura de “Word to the Wise”, um diálogo de ternura entre piano e voz discretamente alumiado por acordes de guitarra. No post scriptum, Finn pegou numa guitarra e entoou sozinho “This is The “Thing”.

 

Um concerto memorável, onde apenas faltou “Sort of Revolution”, e que revelou que o percurso ascendente dos FINK se deve à excelência dos músicos e à coragem de trocar fórmulas feitas por inovações criativas.



Texto: Ana Cristina Carqueja

Fotografias: Nuno Machado
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